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A maioria das pessoas que vai fazer intercâmbio pensa em inglês, visto, moradia e dinheiro. A comida fica de lado — até que você chega no destino e percebe que ela vai ocupar uma parte bem maior dos seus pensamentos do que você esperava.

Não é exagero. Para o brasileiro, a alimentação tem peso cultural enorme. Crescemos com arroz e feijão diários, com o almoço como refeição principal, com tempero, com sabores intensos. E quando essa referência some, o estranhamento é real.

A boa notícia: a adaptação é possível e, para muita gente, vira uma das partes mais ricas do intercâmbio. O objetivo aqui não é te assustar, mas te preparar de verdade — com exemplos concretos de diferentes destinos, dicas práticas e uma visão honesta do que te espera na cozinha (ou fora dela) quando você estiver fora do Brasil.

O que você vai aprender:

Por que a alimentação impacta tanto quem vai para o exterior

Comida não é só combustível. Para o brasileiro, ela é hábito, afeto e rotina. O almoço completo, o cafezinho da tarde, o pãozinho de queijo no café da manhã — tudo isso compõe uma estrutura de conforto que a maioria das pessoas nem percebe que tem, até que ela some.

A antropóloga Joana Pellerano descreve bem esse fenômeno: a comida funciona como ferramenta de identidade. Quando você está num contexto cultural diferente, ela vira uma referência emocional ainda mais forte. Não à toa, uma das primeiras coisas que o brasileiro no exterior aprende a buscar é onde encontrar os ingredientes de casa.

Isso não significa que você vai sofrer. Significa que a alimentação vai ser, sim, parte do processo de adaptação. E entender isso antes de viajar já é metade do caminho andado.

O que mais surpreende (de forma positiva)

Antes de falar no que faz falta, vale destacar o que frequentemente encanta os brasileiros no exterior.

A variedade étnica

Em cidades como Toronto, Londres, Berlim e Melbourne, é difícil não se surpreender com a quantidade de culinárias disponíveis. Restaurantes tailandeses, indianos, coreanos, etíopes, libaneses — e com qualidade real. Para muitos brasileiros, o intercâmbio se torna a primeira oportunidade de ter contato profundo com gastronomias que nunca teriam acessado no Brasil.

A praticidade do dia a dia

Em países como Alemanha, Japão e Canadá, comer de forma rápida, limpa e barata é acessível. Cantinas universitárias na Alemanha (as chamadas Mensas) servem refeições completas por valores entre 2€ e 5€. No Japão, os kombinis (lojas de conveniência abertas 24h) vendem onigiri, sanduíches quentes e refeições prontas de qualidade surpreendente. Para o brasileiro que chega esperando o pior, isso é um alívio.

Produtos que não existem por aqui

A descoberta de novos sabores e ingredientes costuma virar obsessão. O queijo halloumi, que lembra queijo coalho e funciona muito bem grelhado, é um exemplo clássico relatado por brasileiros na Europa. Frutas e legumes com apresentação impecável nos mercados alemães e canadenses também surpreendem muito.

O que realmente faz falta

Aqui a lista é real. E vale que você saiba antes de embarcar.

O feijão

O feijão carioca — aquele que a gente come com arroz branco e fica com o caldo levemente cremoso — praticamente não existe fora do Brasil. Em países hispanófonos como Argentina e México, dá para encontrar feijão preto ou feijão pinto, mas o sabor e a textura são diferentes. Em países europeus, asiáticos e anglo-saxões, o feijão que existe é o cannellini, o kidney ou o lentilha, todos com perfis de sabor distintos.

O pão de queijo

Ausência sentida em todos os destinos. Em cidades com comunidade brasileira maior — como Newark nos EUA, Toronto no Canadá ou Londres no Reino Unido — é possível encontrar versões em padarias brasileiras ou lojas especializadas, mas o preço costuma ser salgado.

O tempero

A culinária brasileira tem uma identidade aromática forte: alho, cebola, pimentão, coentro e azeite de oliva usados com generosidade. Na Alemanha, a cozinha tradicional é mais sóbria. No Japão, os sabores são precisos mas muito diferentes. Nos EUA, o cotidiano alimentar de muita gente gira em torno de ultra processados com pouca complexidade de tempero. A sensação de "falta algo" na comida é relatada por praticamente todos os brasileiros nos primeiros meses.

O almoço como refeição principal

Em boa parte do mundo — especialmente em países anglo-saxões e do norte europeu — o almoço é uma refeição rápida e fria: sanduíche, salada, sopa em copo. O jantar é que costuma ser mais elaborado. Para o brasileiro criado com o almoço como centro do dia, essa inversão é desconcertante no início.

Como é a alimentação em destinos populares de intercâmbio

Estados Unidos

O extremo da praticidade. Fast food é barato, acessível e onipresente. Mas a comida caseira e fresca de qualidade tem um custo bem mais alto do que o brasileiro imagina.

Supermercados grandes como Walmart e Trader Joe's oferecem boa variedade de produtos frescos a preço razoável. O desafio é que cozinhar exige tempo e, nas primeiras semanas de adaptação, isso é raro.

Nas cidades com comunidade brasileira consolidada — Miami, Newark, Boston, Framingham (Massachusetts) — é possível encontrar mercados com produtos importados do Brasil, mas os preços são altos. Uma coxinha pode custar entre US$ 5 e US$ 10, e produtos de mercearia brasileira costumam ter markup considerável.

Canadá

Provavelmente o destino mais amigável para quem valoriza diversidade alimentar. Toronto é uma das cidades mais multiculturais do mundo, e isso aparece diretamente nos mercados e restaurantes. Encontrar ingredientes asiáticos, latinos e africanos é fácil e relativamente barato nos bairros certos.

O clima rigoroso impacta a alimentação: no inverno, a tendência é consumir mais alimentos quentes, processados e com mais gordura. Cozinhar em casa é quase uma necessidade econômica, já que comer fora em cidades como Toronto e Vancouver é caro.

Alemanha

Destino com ótima relação custo-benefício alimentar. A Mensa universitária é um recurso valioso: refeições completas e quentes com preço subsidiado, acessíveis para estudantes estrangeiros.

A cozinha alemã tradicional (salsichas, batata, pão escuro, chucrute) é boa, mas a variedade étnica nas cidades grandes é impressionante. Berlin, especialmente, tem uma das maiores variedades de comida internacional da Europa.

O desafio para o brasileiro é o café da manhã. A tradição alemã inclui frios, queijo e pão — sem fruta, sem leite quente, sem o pãozinho morno da padaria. É uma mudança de hábito que demora a encaixar.

Japão

O destino que mais surpreende positivamente na questão alimentar. A comida japonesa tem um nível de qualidade e consistência que choca quem nunca viveu lá. Os kombinis oferecem opções saborosas e acessíveis, os restaurantes de ramen e sushi saem bem mais baratos do que no Brasil, e a variedade de pratos disponíveis em qualquer cidade médio-grande é enorme.

O desafio é a ausência completa de referências brasileiras. Nenhum feijão, nenhum tempero familiar, nenhum café do jeito que o brasileiro está acostumado. A adaptação é mais radical, mas quem abraça a culinária japonesa tende a gostar muito.

Um ponto de atenção: intolerância a lactose e sensibilidade a glúten podem ser difíceis de comunicar inicialmente por conta da barreira do idioma.

Portugal

O destino de menor impacto alimentar para brasileiros. A culinária portuguesa tem muita sobreposição com a nossa: bacalhau, arroz, feijão branco, caldo verde, pastel de nata. Os ingredientes brasileiros são relativamente fáceis de encontrar em Lisboa e Porto, que têm comunidade brasileira grande.

O feijão carioca ainda é raro, mas o feijão branco e o preto existem. O bacalhau é onipresente. E o pão, apesar de diferente do nosso, é de qualidade muito boa.

Estratégias práticas para se adaptar bem

Aprenda a cozinhar antes de sair do Brasil

Não precisa ser chef. Saber preparar três ou quatro pratos com ingredientes universais — arroz, ovos, macarrão, legumes refogados, frango — já transforma completamente a experiência. Quem sai sem saber cozinhar nada depende 100% de comer fora, o que encarece muito o intercâmbio.

Substitua, não procure exatamente o mesmo

O erro mais comum é gastar energia procurando o ingrediente idêntico ao brasileiro. A abordagem que funciona melhor é encontrar substitutos que cumprem a função. Feijão carioca pode virar feijão preto ou lentilha. Coentro pode ser substituído por salsinha. O tempero vai ser diferente, mas o resultado pode ser ótimo.

Use as cantinas universitárias

Em quase todos os países com tradição de educação internacional, a cantina do campus tem subsídio para estudantes. É uma refeição quente e barata que resolve o almoço durante a semana sem esforço.

Explore os mercados de bairro e feiras

Supermercados de rede são práticos, mas os mercados locais e feiras de bairro costumam ter produtos mais frescos e baratos, além de ser uma forma de entender a cultura alimentar do lugar com mais profundidade.

Não ignore o impacto emocional

Sentir saudade da comida de casa é normal e não tem nada de frescura. A comida está ligada à memória, ao afeto, à família. Cozinhar uma receita brasileira de tempos em tempos — mesmo que adaptada — ajuda a manter o equilíbrio emocional, especialmente nos primeiros meses.

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Como cozinhar no exterior sem depender de ingredientes brasileiros

A maior descoberta de quem passa mais de dois ou três meses fora é que dá para comer bem — e com sabor brasileiro — usando ingredientes locais.

Alho, cebola e azeite são encontrados em qualquer supermercado do mundo. A partir daí, é questão de técnica e criatividade. Um refogado base bem feito já transforma qualquer proteína local em algo familiar ao paladar brasileiro.

Algumas adaptações que brasileiros relatam com frequência:

Cozinhar em conjunto com outros intercambistas de diferentes países é, aliás, uma das formas mais ricas de conexão cultural. Você ensina o seu arroz com feijão, aprende a fazer pad thai, e descobre que comida é uma das linguagens mais universais que existem.

A alimentação como parte da experiência

O choque alimentar é real, mas temporário. A maioria dos brasileiros que passa mais de três meses fora relata que, depois da fase inicial de estranhamento, a relação com a comida se torna uma das partes mais enriquecedoras da experiência.

Você vai descobrir sabores que não sabia que existiam. Vai aprender a cozinhar por necessidade e acabar gostando. Vai ter histórias para contar — de pratos que adorou, de coisas que não conseguiu engolir, de noites cozinhando com gente do mundo inteiro.

E, quando voltar ao Brasil, a primeira refeição de arroz com feijão vai ser uma das melhores que você já comeu.

Preparação internacional completa em um só lugar

Se você chegou até aqui, é porque o intercâmbio já saiu da categoria de "seria legal um dia" e entrou na de "estou pensando de verdade nisso". E esse pensamento merece uma próxima etapa concreta.

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Foto de capa por Farhad Ibrahimzade na Unsplash