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Ter um bisavô italiano ou uma avó portuguesa pode valer mais do que qualquer diploma na hora de planejar um intercâmbio. Não é exagero: um passaporte europeu muda o tipo de visto que você precisa, a mensalidade que você paga e até qual bolsa faz mais sentido pedir.
O problema é que a maioria dos brasileiros que tem ascendência europeia trata isso como curiosidade de família, não como estratégia de intercâmbio. E quem já começou o processo de reconhecimento de cidadania, muitas vezes não sabe que as regras mudaram bastante em 2025 e 2026, tanto na Itália quanto em Portugal, os dois países mais procurados por brasileiros nessa jornada.
Este artigo não é sobre como provar que você tem direito à cidadania (isso a gente já explicou em outro texto do blog, que você pode acessar clicando aqui). Neste artigo, o foco é outro: o que muda na prática, para quem pensa em estudar, morar ou trabalhar fora, quando esse segundo passaporte sai do papel.
O que você vai aprender:
- A diferença real entre estudar com visto e estudar como cidadão da União Europeia
- Onde a cidadania europeia economiza dinheiro de verdade e onde a diferença é pequena
- Por que ter passaporte europeu pode, em alguns casos, reduzir o valor de uma bolsa
- O que mudou na cidadania italiana com a reforma de 2025/2026
- O que mudou na cidadania portuguesa com a nova lei em vigor desde maio de 2026
- Se vale a pena correr atrás da cidadania antes de aplicar para o intercâmbio
O que é dupla cidadania europeia e por que ela pesa mais do que um visto
Dupla cidadania significa que você é, ao mesmo tempo, brasileiro e cidadão de um país da União Europeia, geralmente por descendência de um pai, avô ou bisavô nascido lá. Diferente de um visto, que precisa ser renovado, justificado e pode ser negado, a cidadania é um direito. Ela não expira e não depende de você provar, todo ano, que ainda merece estar no país.
Isso é o que muda o jogo no intercâmbio. Um visto de estudante te dá permissão para estudar em um país específico, por um tempo específico, geralmente com restrição de horas de trabalho. A cidadania europeia te dá o direito de estudar, morar e trabalhar em qualquer um dos 27 países da União Europeia, sem prazo de validade e sem depender de aprovação de universidade ou empregador.
O que muda no processo de intercâmbio
Fim do visto de estudante e do limite de permanência
Quem só tem passaporte brasileiro entra na Europa como turista por até 90 dias a cada 180 dias, e para ficar mais tempo (para estudar, por exemplo) precisa de visto de estudante, aprovação prévia da instituição e, dependendo do país, comprovação de renda ou seguro saúde específico.
A partir do fim de 2026, esse grupo também vai precisar da autorização eletrônica ETIAS para entrar no Espaço Schengen, mesmo em viagens curtas.
Quem tem cidadania europeia não precisa de nada disso. Não existe limite de 90 dias, não existe processo de visto e o ETIAS não se aplica. Você entra, se matricula e permanece pelo tempo que quiser, com o mesmo direito de qualquer estudante local.
Nenhuma autorização especial para trabalhar
Vistos de estudante em países europeus costumam limitar o número de horas de trabalho por semana, e trabalhar fora dessas regras pode custar o visto inteiro. Cidadãos europeus não têm esse teto.
Você pode trabalhar meio período, período integral nas férias, fazer estágio remunerado ou aceitar uma proposta de emprego assim que se formar, sem pedir permissão a ninguém.
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O que muda no custo: mensalidade, moradia e o que não muda tanto assim
Aqui está o ponto que mais gera confusão: a cidadania europeia nem sempre economiza dinheiro, e o tamanho da economia varia muito de país para país.
Onde a diferença é enorme
Na Holanda, um estudante europeu paga a mensalidade estatutária, algo em torno de 2.600 a 2.700 euros por ano em universidades públicas. Um estudante não europeu, sem esse status, paga a mensalidade institucional, que costuma variar entre 8 mil e 20 mil euros por ano, podendo passar de 25 mil em cursos de mestrado específicos.
A mesma lógica se repete em boa parte da Escandinávia, onde estudantes de fora da União Europeia pagam mensalidade cheia enquanto europeus estudam de graça ou por valores simbólicos.
Há também o Reino Unido, que desde o Brexit deixou de conceder mensalidade de residente (home fee) para cidadãos da União Europeia. Ou seja: se o seu plano é estudar especificamente em uma universidade britânica, a cidadania europeia deixou de fazer diferença nesse país.
Onde a diferença é pequena, ou praticamente não existe
Na Alemanha, a maior parte das universidades públicas não cobra mensalidade de ninguém, seja europeu ou não, apenas uma taxa semestral de administração, geralmente entre 150 e 350 euros.
Na França, o valor cobrado pelo governo em universidades públicas é parecido para europeus e não europeus, algo entre 170 e 380 euros por ano na graduação.
Na Itália, universidades públicas costumam calcular a mensalidade pela renda familiar (o chamado ISEE), o que beneficia mais quem já mora no país do que quem simplesmente tem o passaporte.
Ou seja: a cidadania europeia é decisiva em alguns destinos (Holanda, países nórdicos, em geral universidades privadas) e quase irrelevante em outros (Alemanha, França, Itália), onde o sistema já é acessível para qualquer estudante internacional.
O que muda no acesso a bolsas de estudo
O paradoxo do Erasmus Mundus
Esse é o detalhe que quase ninguém conta: em programas como o Erasmus Mundus, ser brasileiro pode valer mais, financeiramente, do que ser europeu.
O que é o Erasmus Mundus e como brasileiros podem concorrer
O programa divide candidatos em duas categorias, "Programme Country" (União Europeia e associados) e "Partner Country" (o resto do mundo, incluindo o Brasil), com cotas de vagas separadas e valores de bolsa diferentes: candidatos de Partner Country costumam receber um estipêndio mensal maior do que candidatos de Programme Country, além de concorrer em uma cota própria, separada dos europeus.
Na prática, isso significa que quem tem dupla cidadania e decide usar o passaporte europeu na candidatura pode acabar concorrendo em uma cota mais disputada, com bolsa mensal menor. Em muitos casos, vale mais a pena manter a candidatura como cidadão brasileiro e guardar a cidadania europeia para depois, quando for morar ou trabalhar no continente.
Bolsas nacionais e institucionais exclusivas
Por outro lado, uma parte relevante das bolsas de graduação, mestrado e iniciação científica financiadas por governos ou universidades europeias é reservada exclusivamente para cidadãos do próprio bloco, sem opção de aplicação para estrangeiros, mesmo pagantes.
Ter o passaporte de um país da União Europeia abre a porta para esse tipo de edital, que simplesmente não aparece nas buscas de quem só tem cidadania brasileira.
O caminho mais estratégico, na maioria dos casos, é olhar as duas frentes ao mesmo tempo: bolsas abertas a não europeus (onde o Brasil costuma ter vantagem) e bolsas restritas a cidadãos da UE (onde a cidadania resolve um problema que nenhum outro documento resolve).
Como funciona o processo de reconhecimento (o que mudou em 2025 e 2026)
Cidadania italiana
Até março de 2025, quem descendia de um italiano que nunca havia se naturalizado em outro país tinha, em regra, direito ao reconhecimento da cidadania sem limite de gerações.
Isso mudou com o Decreto-Lei 36/2025, convertido na Lei 74/2025, conhecida como Reforma Tajani. A partir dela, o reconhecimento direto passou a valer, em regra, apenas para filhos e netos nascidos no exterior de italiano. Bisnetos e gerações mais distantes perderam a via direta, com exceção de quem já havia protocolado o pedido até 27 de março de 2025, quem tem pai ou avô que possuía exclusivamente a cidadania italiana, ou quem tem um dos pais que morou legalmente na Itália por ao menos dois anos consecutivos antes do seu nascimento.
A validade dessa reforma chegou a ser julgada pela Corte Constitucional italiana em março de 2026, e o entendimento que prevaleceu manteve os limites da nova lei. Quem se encaixa hoje nas exceções ou está nas duas primeiras gerações ainda tem caminho aberto, mas a análise do caso concreto (e de qual documentação está disponível) se tornou essencial antes de começar.
Cidadania portuguesa
Portugal seguiu direção parecida, mas com um desenho diferente. A Lei Orgânica 1/2026, em vigor desde 19 de maio de 2026, passou a prever expressamente o direito de bisnetos à cidadania por descendência direta, algo que antes dependia de interpretação.
A contrapartida é que essa via para bisnetos passou a exigir também residência legal em Portugal, além dos requisitos de vínculo com o país que já existiam. Filhos e netos continuam com o caminho mais direto, sem essa exigência de residência.
Pedidos protocolados antes de 19 de maio de 2026 seguem as regras anteriores. Prazos de processamento têm variado bastante conforme o grau de parentesco e o órgão responsável pela análise, então vale confirmar o tempo estimado atual diretamente no consulado português ou com um profissional habilitado antes de planejar datas.
Espanha, Alemanha e outros países
As regras para cidadania espanhola por descendência são historicamente mais restritas, limitadas principalmente a filhos de espanhóis, com exceções específicas para casos ligados à Lei da Memória Democrática.
Já a cidadania alemã por descendência não impõe, hoje, um limite de gerações como o italiano, mas exige comprovação completa e ininterrupta da linha de descendência, o que pode ser tão trabalhoso quanto qualquer outro processo.
Como essas regras têm histórico recente de mudanças, o mais seguro é sempre confirmar a situação atual direto no site oficial do consulado do país antes de reunir documentação ou contratar qualquer serviço.
Vale a pena correr atrás da cidadania antes do intercâmbio?
Depende do prazo que você tem e do destino que já escolheu. Se a viagem é para dali a um ou dois anos e o destino é Holanda, países nórdicos ou uma bolsa institucional europeia, o processo de cidadania pode compensar o tempo de espera, principalmente para quem está na geração de filho ou neto, com processo mais rápido.
Se o plano é de curto prazo ou o destino é Alemanha, França ou Itália, onde a diferença de custo entre europeu e não europeu é pequena, talvez não valha a pena atrasar o intercâmbio esperando um processo de anos.
Nesses casos, faz mais sentido aplicar como brasileiro agora e deixar a cidadania rodando em paralelo, para usar mais à frente, na hora de fixar residência, trabalhar ou pedir uma bolsa exclusiva para europeus.
Perguntas frequentes sobre dupla cidadania europeia e intercâmbio
Ter dupla cidadania europeia é obrigatório para fazer intercâmbio na Europa? Não. A grande maioria dos brasileiros faz intercâmbio na Europa com visto de estudante comum, sem nenhuma cidadania europeia. A dupla cidadania é um facilitador, não um pré-requisito.
A cidadania europeia sempre reduz o valor da mensalidade? Não sempre. Em países como Holanda e nórdicos, a diferença é grande. Em países como Alemanha, França e Itália, a mensalidade já costuma ser baixa ou calculada por renda para qualquer estudante internacional, então o impacto da cidadania é menor.
Perco a cidadania brasileira se conseguir um passaporte europeu? Não. Brasil permite dupla (e até múltipla) cidadania sem exigir renúncia à nacionalidade de origem.
Quanto tempo leva para reconhecer a cidadania italiana ou portuguesa hoje? Varia bastante conforme o grau de parentesco, o consulado responsável e a via escolhida (consular ou judicial, no caso italiano). Como os prazos mudam com frequência, o dado mais confiável é sempre o publicado pelo próprio consulado no momento em que você for iniciar o processo.
Ter cidadania europeia atrapalha a candidatura para bolsas como o Erasmus Mundus? Pode reduzir o valor da bolsa em alguns programas, já que candidatos de fora da União Europeia costumam receber estipêndio maior e concorrem em cota separada dos europeus. Vale avaliar caso a caso qual cidadania usar na candidatura.
O intercâmbio não espera o passaporte ficar pronto
Se você chegou até aqui, provavelmente já percebeu que a cidadania europeia é uma ferramenta poderosa, mas não é a única, e nem sempre a mais rápida.
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Foto de capa por Christian Lue na Unsplash