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Se você já falou "thank you" e sentiu que a palavra não saiu do jeito que devia, não é impressão sua. Existem sons em inglês que, literalmente, não existem em português — e é por isso que certos erros se repetem entre brasileiros de qualquer nível, do iniciante ao avançado.
Esses erros não têm relação com estudar pouco ou não saber gramática. Eles têm origem na forma como o cérebro é treinado desde criança para reconhecer apenas os sons do português. Quando você aprende inglês, sua boca tenta encaixar sons novos em moldes antigos — e é aí que nascem os famosos "vícios de pronúncia" que perseguem brasileiros até depois de anos de estudo.
Neste artigo, você vai entender exatamente quais são esses erros, por que eles acontecem e, mais importante, como treinar para corrigi-los de forma definitiva antes do seu intercâmbio.
O que você vai aprender:
- Por que o cérebro de um brasileiro "trava" em certos sons do inglês
- O erro do "th" e como parar de trocá-lo por "f", "v", "s" ou "z"
- Por que você fala "isquederf" quando devia dizer "schedule"
- O vício de adicionar vogais no final das palavras (e como parar)
- A confusão entre vogais curtas e longas, como em "ship" e "sheep"
- Os problemas com o "R" e o "L" no fim das palavras
- Como treinar a pronúncia sem gastar nada
Por que o brasileiro erra sempre nos mesmos sons
Todo idioma tem seu próprio conjunto de sons, chamados de fonemas. O português brasileiro tem menos vogais e uma estrutura silábica diferente da do inglês — e, quando você aprende um segundo idioma, o cérebro tenta usar o que já conhece para dar conta do que é novo. Esse fenômeno tem nome na linguística: transferência fonética.
O resultado é bem previsível: os erros de pronúncia de brasileiros não são aleatórios, eles seguem um padrão. Por isso é possível mapear exatamente onde a maioria das pessoas trava — e treinar cada ponto de forma isolada, em vez de tentar "consertar o sotaque" de um jeito genérico e sem direção.
Vale reforçar uma coisa: ter sotaque não é o problema. Todo mundo que aprende um idioma na vida adulta carrega marcas da língua materna, e isso não impede ninguém de se comunicar bem lá fora. O que atrapalha de verdade é quando o erro de pronúncia muda o significado da palavra ou torna a fala difícil de entender. É nesses pontos que vale a pena focar o treino.
O "th" que não existe em português
Esse é, sem dúvida, o erro mais famoso. O inglês tem dois sons de "th": um surdo, como em "think" ou "three", e um sonoro, como em "this" ou "that". Nenhum dos dois existe em português, então o cérebro brasileiro naturalmente substitui por sons parecidos: "f", "v", "s" ou "z".
O resultado é "sri" no lugar de "three", ou "dis" no lugar de "this". Na maioria das vezes o interlocutor ainda entende pelo contexto, mas em provas de proficiência como o IELTS e o TOEFL, esse é um dos erros mais frequentemente apontados na correção do speaking.
Como corrigir: coloque a ponta da língua entre os dentes e sopre o ar, sem vibrar as cordas vocais para o som surdo (think, three, bath) e vibrando para o som sonoro (this, that, mother). Praticar na frente do espelho por alguns minutos por dia já ajuda a criar a memória muscular.
A vogal fantasma no final das palavras
Esse talvez seja o erro mais entregador de todos. Em português, praticamente toda sílaba termina em vogal. Em inglês, é comum uma palavra terminar em consoante, e isso incomoda o ouvido brasileiro — então, sem perceber, muita gente completa a palavra com uma vogal extra no final.
É esse hábito que transforma "hot dog" em algo como "rôtchi dóugui", ou "world" em "uôrldi". Esse fenômeno tem até nome técnico: epêntese vocálica.
Como corrigir: treine terminar a palavra exatamente onde ela termina, sem soltar nenhum som depois da última consoante. Um exercício simples é gravar você mesmo falando pares como "cat" e "cats", "work" e "world", prestando atenção para não emendar nenhuma vogal no final.
"T" e "D" que viram "tchi" e "dji"
Em boa parte do Brasil, o "t" e o "d" seguidos da vogal "i" são pronunciados como "tchi" e "dji" — é assim que dizemos "tia" e "dia". O problema é que esse hábito é transferido direto para o inglês, mesmo quando a palavra não pede isso.
É por isso que "tea" às vezes soa como "tchi", ou que "Tuesday" vira algo bem distante do som original. Em inglês, o "t" e o "d" mantêm o som mais seco, sem esse deslizamento.
Como corrigir: ao praticar palavras como "tea", "Tuesday", "student" ou "duty", force o som do "t" e do "d" mais próximo do que fazemos em palavras como "teto" ou "dado" em português, sem deixar a língua escorregar para o "tchi/dji".
Vogais que parecem iguais, mas não são
O português tem menos vogais do que o inglês, e isso faz o ouvido brasileiro tratar como iguais sons que, em inglês, mudam completamente o significado da palavra. Os exemplos mais clássicos:
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Ship (navio) x Sheep (ovelha) — a diferença está na duração e na abertura da vogal
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Full (cheio) x Fool (bobo) — o mesmo tipo de confusão entre vogal curta e longa
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Man (homem) x Men (homens) — o "a" de "man" não existe em português, e por isso costuma virar "e"
Esse tipo de troca pode gerar situações no mínimo constrangedoras — e é um erro comum mesmo entre quem já tem um inglês avançado.
Como corrigir: treine em pares mínimos (palavras que mudam só um som, como os exemplos acima). Existem listas prontas e gravações de pronúncia gratuitas no Youtube e em dicionários online como o Cambridge Dictionary, que trazem o áudio de cada palavra.
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O "R" que sai errado e trava a fala
O "R" brasileiro, principalmente no início ou no meio das palavras, costuma ser produzido bem no fundo da garganta — parecido com o "R" carioca de "carro". O inglês usa um som completamente diferente, produzido com a língua curvada para trás, sem tocar o céu da boca.
Quando esse "R" gutural do português é usado em inglês, palavras como "very", "really" ou "world" ficam com um som pesado, que soa estranho para ouvidos nativos e pode até dificultar o entendimento.
Como corrigir: para treinar o "R" do inglês, arredonde levemente os lábios e curve a ponta da língua para trás, sem deixar que ela toque em nenhuma parte da boca. Praticar palavras isoladas como "red", "right" e "world" antes de tentar frases inteiras facilita bastante.
O "L" no final das palavras
Outro clássico: o "L" do inglês no final de palavras como "apple", "pull" ou "school" é o chamado "dark L" — um som mais grave, produzido com a parte de trás da língua elevada. Em português, esse "L" final normalmente vira um som de "u", como em "Brasil" (que soa "Brasiu").
Esse hábito, transferido para o inglês, faz "apple" soar como "épou" e "pull" como "pou" — o que também contribui para a confusão entre "pull" e "pool" mencionada acima.
Como corrigir: ao final de palavras com "L", mantenha a ponta da língua tocando levemente atrás dos dentes da frente, sem deixar o som escorregar para o "u". No começo, vale exagerar o movimento para criar o hábito.
O "-ed" do passado que ninguém aprende direito
Em inglês, a terminação "-ed" dos verbos regulares no passado pode ter três sons diferentes, dependendo da última letra do verbo: /t/ (como em "watched"), /d/ (como em "played") ou /ɪd/ (como em "wanted" e "needed"). Muita gente brasileira aprende a regra na teoria, mas nunca treina o ouvido para aplicá-la na prática, e acaba pronunciando tudo como uma sílaba extra.
Como corrigir: separe os verbos em três grupos, segundo a terminação, e treine cada grupo isoladamente. Verbos terminados em "t" ou "d" (como "want" e "need") ganham a sílaba extra "-id". Os demais seguem o som de "t" ou "d" sem sílaba nova.
Como treinar a pronúncia sem gastar nada
Corrigir pronúncia não exige curso caro nem morar fora. O que exige é repetição consciente — ou seja, praticar prestando atenção no que está sendo corrigido, e não só repetindo no automático. Algumas formas gratuitas de treinar:
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Shadowing: ouvir uma frase curta em inglês e repetir imediatamente, tentando imitar o ritmo e a entonação, não só as palavras
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Gravação da própria voz: gravar áudios curtos falando sobre o dia e comparar com a pronúncia de um nativo
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Dicionários com áudio: usar o Cambridge Dictionary ou o Merriam-Webster para ouvir a pronúncia correta de qualquer palavra antes de usá-la
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Séries e podcasts com transcrição: acompanhar o texto enquanto ouve ajuda o cérebro a conectar o som certo à grafia da palavra
O importante é entender que pronúncia é habilidade motora, não conhecimento teórico. Ela só melhora com repetição ativa — e cada erro corrigido aqui é um degrau a menos entre você e uma conversa fluida em inglês, seja numa entrevista de bolsa, numa prova de proficiência ou no primeiro dia de aula fora do Brasil.
Perguntas frequentes sobre erros de pronúncia em inglês
Ter sotaque brasileiro atrapalha em provas como TOEFL e IELTS? Não. Os critérios oficiais de avaliação consideram clareza e fluência, não a proximidade com um sotaque nativo. Um sotaque brasileiro perceptível não reduz a nota, desde que a fala continue compreensível para quem está avaliando.
Quanto tempo leva para corrigir um erro de pronúncia fixado? Depende do quanto você já usou aquele erro sem perceber, mas a maioria das pessoas nota melhora perceptível em poucas semanas de prática ativa e diária, com atenção direcionada ao som específico.
É melhor treinar pronúncia sozinho ou com um professor? Os dois têm valor. Sozinho, você ganha volume de prática. Com um professor ou parceiro de conversação, você ganha feedback sobre erros que sozinho não conseguiria perceber, porque o próprio ouvido "aceita" o erro como certo.
Vale a pena aprender fonética (o alfabeto fonético internacional) para melhorar a pronúncia? Não é obrigatório, mas ajuda bastante. Saber ler símbolos como /θ/ ou /ʃ/ permite consultar a pronúncia exata de qualquer palavra em um dicionário, em vez de depender só da intuição.
Esses erros de pronúncia realmente atrapalham uma entrevista de bolsa ou intercâmbio? Raramente atrapalham sozinhos. O que pesa é quando o erro compromete o entendimento da frase inteira. Um sotaque marcante não é problema; o que precisa de atenção é a clareza da comunicação.
O próximo passo depois de corrigir a pronúncia
Se você chegou até aqui prestando atenção em cada som, já está à frente da maioria — muita gente passa anos estudando inglês sem nunca parar para entender por que erra sempre nas mesmas palavras.
Mas pronúncia é só uma parte do caminho. Para transformar isso em um intercâmbio, uma bolsa de estudos ou uma oportunidade de trabalho fora do Brasil, é preciso estratégia, preparação e as ferramentas certas para não perder tempo tentando descobrir tudo sozinho.
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Foto de capa por Felicia Buitenwerf na Unsplash