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Imagine chegar no seu intercâmbio, se matricular, arrumar o quarto e só então descobrir que, sem um documento específico de seguro, você nem consegue liberar o visto ou se registrar na universidade. Parece exagero, mas acontece com mais gente do que você imagina — e o motivo, quase sempre, é o mesmo: confundir "recomendado" com "obrigatório".

O seguro viagem para intercâmbio não funciona igual em todo o mundo. Em alguns países, ele é lei: sem ele, o visto simplesmente não sai. Em outros, o sistema de saúde local resolve boa parte do problema e o seguro vira um complemento inteligente, não uma exigência. E tem ainda um terceiro grupo, onde a exigência nem é bem um "seguro viagem" tradicional, mas uma taxa ou um cadastro obrigatório em um sistema público.

Neste guia, você vai entender exatamente o que muda em cada um dos principais destinos de intercâmbio, para não perder tempo (nem dinheiro) contratando a coisa errada — ou, pior, descobrir a exigência tarde demais.

O que você vai aprender:

  • A diferença entre seguro exigido por lei e seguro apenas recomendado
  • Como funciona a exigência no Espaço Schengen (Europa)
  • Por que o seguro nos Estados Unidos muda conforme o tipo de visto
  • Como o Reino Unido substitui o seguro privado por uma taxa de saúde
  • O que muda no Canadá entre as províncias
  • Por que a Austrália e o Japão têm sistemas obrigatórios, mas diferentes entre si
  • Um quadro comparativo rápido para consultar antes de aplicar

Por que existe essa diferença entre "lei" e "recomendação"

Antes de ir país por país, vale entender a lógica por trás disso. De forma geral, a exigência de seguro depende de como funciona o sistema de saúde local:

  • Onde não existe saúde pública universal para estrangeiros, como nos Estados Unidos, a exigência tende a ser mais rígida — porque, sem seguro, um atendimento de emergência pode gerar uma dívida de dezenas de milhares de dólares.

  • Onde existe saúde pública, mas ela não cobre automaticamente quem chega de fora, como na Europa do Espaço Schengen, o seguro entra como pré-requisito de visto, uma espécie de garantia de que o governo não vai arcar com seus custos médicos.

  • Onde o governo prefere cobrar uma taxa e incluir o estrangeiro no sistema público, como no Reino Unido e no Japão, o "seguro" tradicional dá lugar a uma contribuição obrigatória que já resolve o acesso à saúde.

Entender em qual desses três grupos o seu destino se encaixa é o primeiro passo para não contratar (ou deixar de contratar) a coisa errada.

Europa (Espaço Schengen): exigência por lei, valor mínimo definido

Se o seu intercâmbio é para um país do Espaço Schengen — como França, Itália, Alemanha, Espanha ou Portugal —, o seguro viagem é uma exigência legal prevista no próprio Código de Vistos da União Europeia (Regulamento CE nº 810/2009, artigo 15). Sem ele, o pedido de visto é recusado.

As regras são as mesmas para qualquer país do bloco, já que o visto Schengen vale para toda a área:

  • Cobertura mínima de 30 mil euros para emergências médicas e repatriação

  • Validade em todos os países do Espaço Schengen, não apenas no destino principal

  • Cobertura para todo o período de estadia, do primeiro ao último dia

  • Inclusão de repatriação médica (transporte de volta ao Brasil em caso de necessidade)

Um erro comum é comprar um seguro que cobre apenas o país de destino principal, ou que começa a valer depois da data de embarque — os dois motivos mais citados em recusas de visto por seguro inadequado.

Vale também lembrar que o Cartão Europeu de Seguro de Saúde (usado por cidadãos europeus) não substitui essa exigência para brasileiros: ele não cobre repatriação nem atendimento em rede privada.

Estados Unidos: depende do tipo de visto

Nos Estados Unidos, a resposta muda completamente conforme o programa de intercâmbio.

Visto J-1 (intercâmbio cultural, au pair, trainee, pesquisa, work and travel): aqui, o seguro é uma exigência federal, prevista no regulamento 22 CFR 62.14 do Departamento de Estado americano. Os patrocinadores do programa são obrigados a verificar se você mantém cobertura durante toda a duração do DS-2019, com estes mínimos:

  • Cobertura médica de pelo menos US$ 100 mil por acidente ou doença

  • Repatriação em caso de morte: US$ 25 mil

  • Evacuação médica: US$ 50 mil

  • Franquia máxima de US$ 500 por acidente ou doença

Descumprir essa exigência pode levar ao cancelamento do status J-1 — não é apenas uma recomendação, é uma condição para manter o visto válido.

Visto F-1 (graduação, mestrado, doutorado em universidade americana): diferente do J-1, a lei federal não exige seguro diretamente.

Mas, na prática, a exigência quase sempre existe mesmo assim — só que definida pela própria universidade, não pelo governo. A maioria das instituições americanas obriga a matrícula em um plano de saúde institucional (ou comprovação de plano equivalente) como condição para se matricular.

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Reino Unido: não é bem um "seguro", é uma taxa de saúde

O Reino Unido tem um modelo diferente de todos os outros. Em vez de exigir um seguro privado, o governo britânico cobra o Immigration Health Surcharge (IHS) — uma taxa paga junto com o visto de estudante, que dá acesso ao NHS (sistema público de saúde britânico) nas mesmas condições de um residente local.

Pontos importantes:

  • O IHS é obrigatório para quem vai ficar no Reino Unido por mais de 6 meses com visto de estudante

  • Ele deve ser pago mesmo que você já tenha um seguro de saúde privado — um não substitui o outro

  • Não existe a opção de "pagar seguro privado em vez do IHS": a taxa é parte obrigatória do processo de visto

  • Seguro viagem tradicional (para bagagem, cancelamento de voo, assistência em viagem) continua sendo recomendado, mas não é exigido pela imigração

Ou seja: no Reino Unido, a "exigência por lei" existe, mas ela não tem a forma de uma apólice de seguro contratada por você — é uma taxa incluída no próprio visto.

Canadá: a exigência varia por província

O Canadá não tem uma regra federal única de seguro para estudantes internacionais — cada província decide como isso funciona, o que torna esse um dos destinos mais confusos nesse quesito.

  • Ontário e Quebec não oferecem cobertura pública para intercambistas: o seguro privado é obrigatório, geralmente cobrado junto com a mensalidade da universidade (o programa mais comum em Ontário é o UHIP)

  • Colúmbia Britânica oferece cobertura pública para quem tem visto de estudo de 6 meses ou mais, mas com carência de até 3 meses — período em que o seguro privado é indispensável

  • Alberta e Saskatchewan oferecem cobertura pública gratuita para vistos de 12 meses ou mais, mas exigem inscrição em até 90 dias após a chegada

Na prática, para qualquer província canadense, chegar sem cobertura médica válida — pública ou privada — não é uma opção segura, mesmo quando a lei federal não obriga diretamente. Vale sempre confirmar a regra específica da província e da instituição antes de embarcar.

Austrália: seguro obrigatório por lei, sem exceção

A Austrália tem uma das exigências mais rígidas entre os destinos de intercâmbio. Para o visto de estudante (subclasse 500), a contratação do Overseas Student Health Cover (OSHC) é uma condição legal do visto, sem exceções para a maioria dos aplicantes.

  • A apólice precisa começar a valer antes da chegada ao país e cobrir toda a duração do visto

  • Existem cinco seguradoras aprovadas pelo governo australiano, e a universidade não pode obrigar você a escolher uma específica

  • A cobertura básica inclui atendimento hospitalar, ambulância de emergência e parte dos medicamentos — mas não cobre odontologia, óculos ou fisioterapia (é preciso contratar "extras" à parte, se quiser essa proteção)

  • Ficar sem OSHC durante qualquer período do visto é considerado violação das condições de permanência

Japão: seguro público obrigatório, não um seguro viagem tradicional

O Japão segue uma lógica parecida com a do Reino Unido, mas via sistema de saúde nacional. Qualquer estrangeiro que vá residir no país por 90 dias ou mais — incluindo intercambistas com visto de estudante — é legalmente obrigado a se inscrever no Kokumin Kenko Hoken (Seguro Nacional de Saúde, ou NHI).

  • A inscrição deve ser feita em até 14 dias após o registro de endereço na prefeitura local

  • O sistema cobre 70% dos custos médicos; o intercambista paga os outros 30% no atendimento

  • O valor da contribuição mensal varia por município e renda — estudantes com pouca ou nenhuma renda pagam valores bem baixos

  • Não pagar a contribuição pode comprometer a renovação do visto de estudante

Diferente do modelo europeu ou australiano, aqui não existe uma "apólice" a ser mostrada na hora do visto — a exigência aparece depois da chegada, no momento do registro de endereço.

Quadro comparativo: onde é lei e onde é recomendação

Destino

Exigência

Base legal / mecanismo

O que verificar

Europa (Schengen)

Lei, antes do visto

Código de Vistos UE, art. 15

Cobertura mínima de €30 mil, válida em todo o bloco

EUA (J-1)

Lei federal

22 CFR 62.14

Mínimos de cobertura e evacuação exigidos pelo patrocinador

EUA (F-1)

Exigência institucional

Regra da universidade

Plano de saúde aceito pela instituição

Reino Unido

Lei, mas via taxa (IHS)

Imigração britânica

Taxa paga com o visto; seguro extra é só recomendado

Canadá

Varia por província

Regra provincial/institucional

Cobertura pública, carência e regras da província de destino

Austrália

Lei, sem exceção

Condição do visto subclasse 500

OSHC válido antes da chegada, sem lacunas

Japão

Lei, após chegada

Sistema Nacional de Saúde

Inscrição em até 14 dias após registro de endereço

O que verificar antes de contratar qualquer seguro

Independentemente do destino, alguns cuidados valem para qualquer intercâmbio:

  • Confirme se a apólice cobre todo o período da viagem, incluindo eventuais dias extras de chegada antecipada

  • Verifique se o valor de cobertura está acima do mínimo exigido — o mínimo legal costuma ser suficiente apenas para emergências básicas

  • Leia com atenção o que fica de fora, como condições preexistentes e esportes de risco

  • Guarde o certificado em português e no idioma do país de destino, caso seja solicitado na imigração

  • Nunca deixe para contratar depois de embarcar: em quase todos os destinos, a cobertura precisa começar antes da viagem

Perguntas frequentes sobre seguro viagem no intercâmbio

O seguro viagem é sempre obrigatório para fazer intercâmbio? Não. A exigência depende do país e do tipo de visto. Na Europa (Schengen), nos Estados Unidos com visto J-1, na Austrália e no Japão, o seguro (ou um mecanismo equivalente) é obrigatório por lei. No Reino Unido, ele é substituído por uma taxa de saúde. Já para vistos como o F-1 americano, a exigência costuma vir da universidade, não do governo.

Qual é o valor mínimo de cobertura exigido para o visto Schengen? O mínimo legal é de 30 mil euros para emergências médicas e repatriação, válido em todos os países do Espaço Schengen durante todo o período da viagem.

Preciso de seguro viagem se já vou pagar o Immigration Health Surcharge no Reino Unido? O IHS dá acesso ao sistema público de saúde britânico (NHS), mas não cobre situações como cancelamento de voo, extravio de bagagem ou assistência fora do território britânico. Por isso, mesmo pagando a taxa, um seguro viagem complementar continua sendo recomendado, ainda que não seja exigido pela imigração.

O seguro do cartão de crédito serve para cumprir essas exigências? Raramente. A maioria dos seguros incluídos em cartões de crédito não emite o certificado específico exigido pelos consulados, nem atinge os valores mínimos de cobertura pedidos para vistos como o Schengen ou o americano J-1. É preciso verificar caso a caso com a operadora do cartão antes de contar com essa cobertura.

O que acontece se eu chegar ao destino sem o seguro exigido? Varia por país. Na Europa, o visto simplesmente não é emitido sem a comprovação prévia. Nos EUA (J-1) e na Austrália, ficar sem cobertura durante o período do visto pode ser considerado violação do status migratório, com risco de cancelamento. No Japão, o sistema de saúde pública é obrigatório mesmo que a cobrança só apareça depois da chegada.

Preparação internacional completa em um só lugar

Se tem uma coisa que fica clara depois de comparar esses destinos, é que "seguro viagem" nunca significa a mesma coisa duas vezes. O que é burocracia simples em um país pode ser motivo de recusa de visto em outro — e a diferença entre saber isso com antecedência ou descobrir na hora é, muitas vezes, a diferença entre embarcar tranquilo ou embarcar no sufoco.

Mas documentação é só uma parte da preparação de um intercâmbio bem-sucedido. O que realmente separa quem consegue uma bolsa, uma vaga ou uma oportunidade lá fora de quem fica só no sonho é ter estratégia — saber quais programas existem, quais documentos cada um exige e como se organizar sem deixar nada pelo caminho.

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Foto de capa por Rudy Dong na Unsplash