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A ideia parece boa demais para ser verdade: passar as férias de julho nos Estados Unidos, trabalhar legalmente, ganhar em dólar e ainda voltar sem dívida. Mas essa combinação existe — e tem nome, visto, regulamentação e décadas de histórico comprovado.
O que a maioria dos brasileiros não sabe é que "summer job nos EUA" não é uma coisa só. É uma categoria ampla que reúne ao menos três tipos de programa com regras, requisitos e potencial de ganho bem diferentes. Cada um serve um perfil. E alguns deles vêm com moradia, alimentação e outros benefícios incluídos — o que muda completamente a conta no final da temporada.
Este guia vai te mostrar o que existe, como funciona, quanto dá para ganhar e o que você precisa ter para entrar em cada programa. Sem promessa de que é fácil, mas sem esconder que é possível.
O que você vai aprender:
- O que é, de fato, um summer job nos EUA e quais são os tipos existentes
- Como funciona o visto J-1, o único visto que autoriza esse tipo de trabalho
- Work and Travel: o programa mais popular, para quem está na faculdade
- Camp counselor: trabalhar em acampamento com moradia e alimentação incluídas
- Summer jobs com bolsa em universidades americanas: a via acadêmica
- Quanto se ganha na prática e se dá para cobrir os próprios custos
- O que você precisa ter antes de se candidatar
O visto que torna tudo possível: o J-1
Antes de entrar nos programas, precisa entender o mecanismo por trás de todos eles.
Trabalhar nos EUA como visitante estrangeiro não é permitido com visto de turismo. O documento que autoriza esse tipo de experiência é o visto J-1, criado pelo Departamento de Estado americano especificamente para programas de intercâmbio cultural. Ele não é um visto de trabalho convencional — é um visto de troca cultural que inclui permissão para trabalhar como parte do programa.
O J-1 existe em várias categorias. As mais relevantes para quem quer fazer um summer job são:
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Summer Work Travel (SWT): para universitários durante as férias acadêmicas
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Camp Counselor: para quem vai trabalhar em acampamentos de verão
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Intern/Trainee: para estágios e treinamentos profissionais supervisionados
Cada categoria tem regras específicas sobre quem pode participar, quanto tempo pode ficar e que tipo de trabalho é permitido. O J-1 exige um sponsor — uma organização credenciada pelo governo americano — para emitir o documento DS-2019, que é o que permite solicitar o visto no consulado.
A taxa de visto J-1 para o Summer Work Travel é de US$ 35 — bem abaixo dos US$ 220 cobrados em outras categorias de J-1 ou dos US$ 185 de um visto convencional de turismo. Esse custo reduzido é uma das características do programa.
Work and Travel: o maior programa de summer job para universitários
O Work and Travel (W&T), também chamado de Work Experience USA, é o programa mais procurado por estudantes brasileiros. É também o mais estruturado e com maior oferta de vagas — e o único que exige matrícula ativa em uma universidade.
Como funciona
O estudante se inscreve em uma operadora credenciada, que faz a intermediação com empregadores americanos. Após aprovação, recebe uma Job Offer (oferta formal de emprego), solicita o visto J-1 e embarca. A temporada de trabalho vai de maio a setembro, coincidindo com o verão americano e com as férias universitárias brasileiras de julho e agosto.
Ao final do contrato de trabalho, o participante tem direito a um grace period de 30 dias para viajar pelos EUA antes de voltar. Isso significa que é possível passar até 5 meses no país de forma completamente regular.
Que tipo de trabalho
As vagas abertas para o W&T são majoritariamente em hospitalidade e turismo: recepcionistas de hotel, garçons, funcionários de resort, atendentes de parques temáticos, lifeguards (salva-vidas) e funções similares. Não exigem formação específica, mas exigem inglês funcional e disposição para trabalhar em turnos variados — incluindo fins de semana e feriados.
Os empregadores estão espalhados pelos destinos turísticos mais movimentados dos Estados Unidos: Cape Cod, Myrtle Beach, Long Island, Ocean City, Chicago, Los Angeles, San Diego, Palm Beach.
Quanto se ganha
A remuneração segue o salário mínimo do estado onde você trabalha. Na prática, os valores ficam entre US$ 13 e US$ 18 por hora dependendo da função e do estado, com possibilidade de gorjeta em funções de atendimento. Trabalhando 35 a 40 horas por semana, o salário bruto semanal fica entre US$ 455 e US$ 720.
Muitos empregadores — especialmente resorts e country clubs — oferecem moradia subsidiada ou gratuita como parte do pacote. Quando a moradia fica entre US$ 50 e US$ 125 por semana (nos casos subsidiados) ou é totalmente gratuita, o valor líquido acumulado ao longo de 12 semanas pode ser significativo.
Um exemplo real tirado de operadoras internacionais do programa:
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Food and Beverage Associate em resort na Flórida: US$ 18/hora × 40 horas = US$ 720/semana bruto. Moradia: US$ 100/semana. Bônus de conclusão: US$ 500. Total em 12 semanas: aproximadamente US$ 7.440 + bônus.
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Server em country club em Nova York: US$ 16/hora × 40 horas = US$ 640/semana bruto. Moradia e alimentação: gratuitas. Total em 12 semanas: US$ 7.680 líquidos antes dos impostos.
Sobre os impostos: participantes do W&T pagam imposto de renda americano, mas são isentos do FICA (Social Security e Medicare). Parte do salário será retida a cada pagamento. O valor líquido final depende do estado e do rendimento total.
O que o programa não cobre
O W&T não é gratuito. Existe um custo inicial antes de embarcar que inclui a taxa da operadora brasileira (entre R$ 3.000 e R$ 6.000 dependendo da empresa), a taxa SEVIS (US$ 35), a taxa consular (US$ 185), passagem aérea e reserva inicial para os primeiros dias nos EUA. O investimento total antes de embarcar fica na faixa de R$ 9.000 a R$ 15.000, a depender da operadora e do câmbio.
É um programa que se auto-sustenta durante a temporada — e muitos participantes voltam com saldo positivo — mas exige capital inicial para arrancar.
Requisitos
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Estar matriculado em uma universidade no Brasil (o vínculo precisa estar ativo)
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Ter entre 18 e 28 anos (o limite varia por sponsor)
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Ter inglês funcional — o suficiente para trabalhar, resolver imprevistos e se comunicar com colegas americanos
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Não ter sido reprovado em visto americano anteriormente
Camp Counselor: moradia e alimentação incluídas
O Camp Counselor é a modalidade com o maior nível de cobertura de custos entre os summer jobs nos EUA. É também a que exige um perfil mais específico — mas para quem se encaixa, é uma das melhores relações custo-benefício do mercado.
Como funciona
Os acampamentos de verão americanos (summer camps) funcionam de junho a agosto e recebem crianças e adolescentes para semanas de atividades ao ar livre: esportes, artes, aventura, música. O counselor é o monitor — o profissional que acompanha, orienta e lidera as atividades com os campistas.
O participante mora no acampamento durante toda a temporada, com alimentação incluída. É um modelo de imersão total: você não vai ao trabalho — você vive no trabalho, 24 horas, com dias de folga regulamentados.
Cobertura de custos
Boa parte dos camps cobre passagem aérea (ida e volta) ou oferece um subsídio significativo de transporte. Moradia e alimentação são praticamente universais. A remuneração mensal é menor do que no W&T — geralmente entre US$ 900 e US$ 2.500 por temporada (não por mês) — mas como as despesas básicas estão cobertas, o valor líquido acumulado é comparável.
Para quem tem pouco capital inicial para investir, o camp counselor pode ser a porta de entrada mais acessível para os EUA: o desembolso antes de embarcar é menor justamente porque a operação é mais fechada.
Requisitos
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Ter entre 18 e 28 anos (alguns camps aceitam até 30)
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Ter habilidade comprovada em alguma atividade — esporte, música, artes, natação, teatro, liderança, idiomas
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Inglês funcional para comunicação com crianças e equipe americana
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Disponibilidade para a temporada completa (geralmente junho a agosto)
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Perfil de liderança e cuidado com crianças e adolescentes
O processo seletivo inclui entrevistas em vídeo com os diretores dos camps e, em muitos casos, verificação de antecedentes criminais.
Summer jobs em universidades americanas: a via acadêmica
Existe uma terceira modalidade de summer job nos EUA que não passa pelo mercado de hospitalidade nem por acampamentos. É a pesquisa de verão em universidades americanas — e ela é, de longe, a que tem maior impacto no currículo de longo prazo.
Como funciona
Grandes universidades americanas — MIT, Stanford, Caltech, Michigan, Texas — abrem todos os anos posições de pesquisa para estudantes de graduação durante o verão. O participante trabalha em um laboratório sob orientação de um professor ou pesquisador, por 8 a 12 semanas.
Diferente do W&T e do camp counselor, aqui o foco não é sustento financeiro — é experiência acadêmica e científica. Muitos programas oferecem bolsa integral que cobre moradia, alimentação e pagam ainda um estipêndio semanal ou mensal.
O que a bolsa cobre
Os programas mais sólidos cobrem moradia no campus, alimentação (ou um vale-refeição), passagem aérea em alguns casos e pagam um estipêndio que varia entre US$ 3.000 e US$ 6.000 para a temporada completa. Em alguns programas específicos, o estipêndio chega a US$ 5.500 por 10 semanas.
Para quem é
A via acadêmica é competitiva e tem requisitos diferentes. A maioria dos programas exige:
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Estar matriculado em graduação (algumas universidades aceitam estudantes de faculdades fora dos EUA, outras não — verifique cada edital)
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Histórico acadêmico sólido, com média alta
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Carta de intenção bem escrita em inglês
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Cartas de recomendação de professores
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Interesse declarado em pesquisa e pós-graduação
Atenção importante: alguns dos programas mais conhecidos nos EUA (como o Amgen Scholars) exigem que o estudante seja cidadão americano ou residente permanente. Isso não é a regra para todos, mas é um filtro que existe em vários dos programas mais badalados. Antes de aplicar, verifique se o programa aceita estudantes internacionais e, especificamente, brasileiros.
Programas que aceitam internacionais geralmente especificam isso no edital. Universidades como MIT, Caltech e algumas unidades do sistema UC têm programas abertos para estudantes de fora dos EUA — mas as vagas são disputadas e os prazos costumam ser entre novembro e fevereiro do ano anterior.
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Quanto se ganha de verdade: a conta honesta
A pergunta que todo mundo quer responder é: no final, dá para pagar o intercâmbio com o próprio intercâmbio?
A resposta honesta é: depende do programa e do quanto você consegue controlar os gastos durante a temporada.
No Work and Travel, quem trabalha em resort ou country club com moradia incluída tem uma chance real de voltar com saldo positivo em dólar. A lógica é simples: se você ganha US$ 640 por semana e paga US$ 0 ou US$ 100 de moradia, o restante é seu. Em 12 semanas, com disciplina, é possível guardar entre US$ 3.000 e US$ 5.000 após descontar gastos pessoais. Convertido para reais, isso representa uma quantia expressiva — e pode cobrir boa parte do custo inicial do programa.
No camp counselor, a lógica é diferente: você não ganha muito em dinheiro, mas praticamente não gasta nada. Moradia, alimentação e transporte estão cobertos. O resultado líquido em dinheiro é menor, mas o investimento inicial exigido também é.
Nos programas acadêmicos, o objetivo não é lucro financeiro. O estipêndio cobre as despesas básicas durante a temporada, e o retorno real é o currículo — uma linha de pesquisa em universidade americana vale muito mais na candidatura para mestrados e bolsas futuras do que qualquer valor em dólar.
O que não é verdade em nenhuma das três modalidades: a ideia de que é possível ir sem nenhum capital inicial. Todo programa exige algum investimento antes do embarque — em taxas, passagem e reserva inicial. Quem planeja com antecedência tem tempo de economizar. Quem deixa para a última hora acaba pagando mais caro ou perdendo o prazo.
O que você precisa ter antes de se candidatar
Independentemente do programa que você escolher, alguns preparativos são universais:
Inglês funcional. Não precisa ser perfeito, mas precisa ser suficiente para trabalhar, resolver imprevistos e se comunicar com colegas e supervisores. Candidatos com inglês muito básico têm dificuldade na seleção — e, se aprovados, enfrentam desafios maiores durante a experiência.
Passaporte válido. Com pelo menos 6 meses de validade além do término previsto do programa. Se o seu está vencido ou prestes a vencer, resolva isso primeiro.
Sem restrição de visto americano. Se você já teve um visto americano negado, isso complica — e em alguns casos inviabiliza — a obtenção do J-1. Consulte um profissional de imigração se esse for o seu caso.
Histórico financeiro básico. Para o visto, você precisará comprovar vínculos com o Brasil (matrícula na faculdade, vínculos familiares) e mostrar que tem condições de arcar com as despesas iniciais.
Tempo para o processo. O visto J-1 exige aplicação com 3 a 4 meses de antecedência. Para embarcar em julho, o processo precisa começar entre março e abril. Quem começa em junho está correndo risco real de não conseguir a tempo.
Qual programa é para você
Perfil Programa mais indicado Universitário, quer experiência e dólar no bolso Work and Travel Tem habilidade específica (esporte, artes, etc.) e quer ir com menos capital inicial Camp Counselor Está na graduação, tem média alta e quer carreira acadêmica Pesquisa de verão em universidade Já se formou ou não está na faculdade Verifique programas com visto J-1 Trainee
Não existe o "melhor" programa em termos absolutos. Existe o programa certo para o seu momento, o seu perfil e o que você quer tirar da experiência. Quem vai para ganhar dinheiro e quem vai para construir currículo acadêmico precisam de caminhos diferentes.
Como planejar a candidatura sem errar nos prazos
O calendário de um summer job nos EUA começa muito antes de julho. Aqui está a linha do tempo que você precisa ter na cabeça:
Novembro a fevereiro: período de inscrição para a maioria dos programas acadêmicos. Os melhores programas fecham as vagas nessa janela.
Novembro a abril: período de inscrição para o Work and Travel. Quem se inscreve em novembro tem mais opções de vagas e localizações. Quem deixa para abril já encontra os melhores empregadores ocupados.
Janeiro a março: entrevistas com empregadores no W&T. O processo inclui entrevistas em vídeo com os gerentes americanos.
Março a abril: prazo ideal para dar entrada no visto J-1 se você quer embarcar em junho ou julho.
Após aprovação do visto: compra da passagem e preparativos finais.
Esse calendário confirma uma coisa: para ir nos próximos anos, o planejamento começa neste semestre.
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Foto de capa por Dmytro Demidko na Unsplash