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A gastronomia brasileira é reconhecida mundialmente. Mas poucos profissionais da área sabem que esse reconhecimento abre portas reais lá fora — não apenas para estudar culinária no exterior, mas para trabalhar dentro de cozinhas profissionais, restaurantes e hotéis de forma completamente legal.

O problema é que a maioria das informações que circulam sobre o assunto é vaga, desatualizada ou ignora um detalhe fundamental: trabalhar no exterior exige documentação correta. E é exatamente isso que este artigo vai cobrir.

Se você é formado em gastronomia, trabalha na área ou simplesmente quer construir uma carreira internacional na cozinha, este guia é para você. Aqui você vai encontrar os caminhos reais — programas reconhecidos pelo governo, vistos específicos para a área e o que você precisa preparar antes de embarcar.

O que você vai aprender:

Por que a gastronomia abre portas no exterior

O setor de hospitalidade e restauração está entre os que mais empregam estrangeiros em países desenvolvidos. Nos Estados Unidos, por exemplo, dados do setor mostram que cerca de 22% da força de trabalho em restaurantes é composta por imigrantes. Na Europa, países como Portugal, Itália e Alemanha mantêm demanda constante por profissionais de cozinha, especialmente em hotéis, resorts e restaurantes de médio e alto padrão.

O que isso significa na prática: há vagas reais, há estrutura legal para preenchê-las com estrangeiros e há países que já possuem acordos ou programas específicos para facilitar esse processo.

A boa notícia é que brasileiros têm algumas vantagens nesse cenário. A culinária brasileira ganhou visibilidade internacional. A habilidade de trabalhar com fusão, com ingredientes tropicais e com técnicas diversas é valorizada. E a reputação de profissionais dedicados e adaptáveis também ajuda.

O que faz a diferença, porém, é chegar com documentação em ordem e com o perfil preparado.

Os principais caminhos para trabalhar legalmente na gastronomia fora do Brasil

1. Trainee Hospitality nos EUA — visto J-1

Este é um dos caminhos mais estruturados para brasileiros que querem trabalhar na área de gastronomia e hospitalidade nos Estados Unidos de forma legal.

O programa de Trainee e Estágio via visto J-1 (Intercâmbio Cultural) é regulamentado pelo governo americano e permite que profissionais da área de hotelaria, turismo e gastronomia trabalhem em hotéis e restaurantes nos EUA por períodos de 6 a 18 meses, dependendo do nível de experiência.

Como funciona:

Requisitos comuns:

Esse tipo de programa existe em diversas cidades dos EUA, incluindo vagas na Califórnia, Connecticut, Atlanta e outros centros gastronômicos relevantes.

Ponto de atenção: o visto J-1 precisa de um patrocinador americano credenciado. Não é possível solicitar esse visto sozinho sem uma oferta de vaga e um sponsor — por isso, a preparação do perfil e do portfólio profissional antes de aplicar é essencial.

2. Working Holiday Visa — para jovens que querem entrar pela porta do dia a dia

O Working Holiday Visa (WHV) é um dos vistos mais acessíveis para quem quer ter a primeira experiência de trabalho no exterior, inclusive na área de gastronomia. Ele permite trabalhar legalmente no país por até 12 meses em qualquer função — incluindo restaurantes, cafés e hotéis.

Países que têm acordo de Working Holiday com o Brasil:

O WHV não é um visto de especialista. Ele não exige formação específica nem experiência prévia comprovada. É ideal para quem quer dar o primeiro passo, aprender o mercado de dentro, dominar o idioma e construir um histórico de trabalho internacional antes de buscar um visto de trabalho mais permanente.

O que esperar trabalhando em restaurantes com WHV: A maioria das vagas em gastronomia via Working Holiday são funções de linha — auxiliar de cozinha, commis chef, operador de cozinha, barista, atendente. Para quem já tem experiência, há abertura para posições mais técnicas, mas a progressão depende do desempenho local e da rede que você constrói.

3. Vistos de trabalho para profissionais qualificados

Para chefs com experiência formal consolidada, existem caminhos de trabalho mais permanentes. Eles exigem mais preparação, mas abrem perspectivas diferentes.

Estados Unidos — visto EB-3 e O-1:

Itália — Decreto Flussi:

Para brasileiros com interesse no mercado italiano, o Decreto Flussi é o mecanismo de cotas anuais para vistos de trabalho em setores com demanda, incluindo hospitalidade e gastronomia. As cotas são abertas anualmente, têm número limitado e o processo é competitivo. Brasileiros com ascendência italiana têm caminhos adicionais via cidadania, o que simplifica muito o processo.

Portugal — visto de trabalho com contrato:

O visto de procura de emprego em Portugal passou por mudanças significativas em 2025, sendo suspensa a modalidade mais ampla. Atualmente, o caminho mais seguro é ter um contrato assinado antes de entrar no país — ou seja, conseguir a vaga remotamente e só então solicitar o visto de trabalho. O setor de hotelaria e restauração está entre os que mais empregam imigrantes em Portugal, o que mantém a demanda por profissionais da área.

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O que os mercados internacionais procuram em profissionais brasileiros

Ter passaporte e querer ir não é suficiente. O mercado de gastronomia lá fora é exigente, e a concorrência é real. Mas há atributos que profissionais brasileiros carregam — e que são diferenciais genuínos.

O que valorizam:

O que atrapalha:

Como construir o perfil antes de aplicar

Independente do caminho que você escolher — trainee, Working Holiday ou visto de trabalho — há um conjunto de preparações que fazem diferença real na hora da seleção.

  1. Formalize sua experiência Se você trabalha na área mas não tem documentação desse histórico, comece a construir agora. Contratos de trabalho, declarações de empregadores anteriores, certificados de cursos — tudo isso compõe o perfil.

  2. Desenvolva o inglês Não precisa de fluência para começar, mas precisa de um nível funcional. Inglês técnico de cozinha tem vocabulário próprio — aprender esse vocabulário específico é mais estratégico do que tentar dominar o idioma completamente antes de ir.

  3. Monte um portfólio visual Fotos de pratos, produções de eventos, criações autorais. Esse material fala por você antes mesmo de uma entrevista acontecer.

  4. Pesquise o mercado do país de destino Cada país tem uma cultura de trabalho diferente. Entender o que restaurantes buscam em cada contexto — e adaptar sua apresentação para isso — aumenta as chances de uma resposta positiva.

  5. Regularize a situação antes de partir Nenhum emprego no exterior compensa o risco de trabalhar irregularmente. Além do risco de deportação, trabalho não documentado não constrói histórico profissional internacional — e você perde dois anos de carreira que poderiam estar somando.

Gastronomia no exterior é uma carreira, não uma aventura

Trabalhar com gastronomia fora do Brasil pode parecer um sonho distante para quem nunca pensou nisso como uma possibilidade real. Mas os caminhos existem, são legais, são documentados — e profissionais brasileiros estão usando eles agora.

O que separa quem vai de quem fica falando em ir é preparação. Saber qual visto usar, qual país faz sentido para o seu perfil, como apresentar sua experiência no padrão internacional e como chegar com a documentação correta.

Mas para chegar a esse ponto, você precisa entender onde está agora e qual direção faz mais sentido para o seu perfil específico.

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Foto de capa por Fabrizio Magoni na Unsplash