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Imagina chegar em outro país, andar pelas ruas, fazer entrevistas presencialmente, construir contatos reais no mercado local — e tudo isso de forma completamente legal, sem precisar de um contrato assinado de antemão. Parece vantagem demais para ser verdade, mas é exatamente isso que o visto de busca de emprego permite.
Esse tipo de visto existe há anos em alguns países, e nos últimos dois anos ganhou versões novas e mais acessíveis em destinos como Alemanha e Espanha. Ao mesmo tempo, um caminho que era muito procurado por brasileiros — Portugal — passou por mudanças importantes que fecharam a porta para a maioria.
Este artigo explica de forma direta o que é esse visto, como ele funciona na prática e quais países oferecem opções reais para brasileiros em 2025 e 2026. Sem promessas fáceis: cada opção tem requisitos sérios, e você precisa saber o que está entrando antes de planejar qualquer coisa.
O que você vai aprender:
- O que é o visto de busca de emprego e como ele funciona
- A situação atual de Portugal (e por que ela mudou)
- Como funciona o Chancenkarte da Alemanha
- O novo visto de busca de emprego da Espanha
- O que você realmente precisa ter para conseguir esses vistos
- Como se preparar antes de aplicar
O que é o visto de busca de emprego
O visto de busca de emprego — chamado também de Job Seeker Visa em inglês — é uma autorização temporária que permite ao cidadão estrangeiro entrar e permanecer legalmente em outro país com o objetivo específico de procurar trabalho. Diferente do visto de trabalho tradicional, você não precisa ter um contrato assinado antes de embarcar.
A lógica é simples: o governo do país entende que buscar emprego presencialmente é muito mais eficiente do que fazer entrevistas à distância. Com esse visto, você pode conhecer empresas, fazer networking, participar de processos seletivos e, quando receber uma oferta, converter o visto para uma autorização de residência e trabalho.
O que esse visto não é: uma garantia de emprego. Você chega ao país com um prazo determinado — geralmente entre 6 e 12 meses — para encontrar trabalho. Se não conseguir dentro desse período, precisa retornar ao seu país de origem.
Outro ponto importante: na maioria dos casos, você não pode trabalhar enquanto busca emprego. O visto é para procurar, não para exercer atividade remunerada durante esse período. A Alemanha tem uma exceção relevante aqui, que explico mais adiante.
Portugal: o que mudou e o que isso significa para você
Durante anos, Portugal foi o destino mais buscado por brasileiros que queriam usar esse tipo de visto. O processo era relativamente acessível, e a língua comum tornava tudo mais fácil.
Mas esse caminho foi encerrado.
Com a nova Lei dos Estrangeiros portuguesa, em vigor desde outubro de 2025, o visto de procura de trabalho no formato anterior foi suspenso. Todos os pedidos novos foram interrompidos. Para 2026, o governo português sinaliza a criação de um novo visto voltado exclusivamente a profissionais qualificados, mas essa modalidade ainda aguarda regulamentação — não há critérios definidos, datas de lançamento confirmadas nem certeza de que será acessível a brasileiros sem vínculos anteriores com o país.
O que isso significa na prática: quem está no Brasil e quer usar Portugal como porta de entrada para o mercado europeu precisa aguardar ou buscar alternativas. As alternativas mais sólidas no momento são Alemanha e Espanha.
Alemanha: o Chancenkarte (Cartão de Oportunidades)
A Alemanha lançou o Chancenkarte — traduzido como Cartão de Oportunidades — como uma modernização do antigo Job Seeker Visa. Ele está disponível desde 2024 e é, hoje, a opção mais estruturada entre os vistos de busca de emprego disponíveis para brasileiros.
Como funciona
O Chancenkarte permite que você viva na Alemanha por até 12 meses para buscar emprego. Durante esse período, você pode trabalhar até 20 horas semanais enquanto procura uma vaga compatível com sua formação — o que ajuda a cobrir os custos iniciais e acelera a adaptação ao mercado local.
Existem duas formas de solicitar o visto:
Via acesso direto: você já tem sua qualificação reconhecida como equivalente à qualificação alemã. Nesse caso, o processo é mais direto.
Via sistema de pontos: você não precisa ter o reconhecimento completo da formação em mãos, mas precisa atingir pelo menos 6 pontos em um sistema que avalia os seguintes critérios:
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Qualificação acadêmica ou técnica (e nível de reconhecimento)
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Experiência profissional (2 pontos para 2+ anos; 3 pontos para 5+ anos)
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Conhecimento de alemão (até 3 pontos, a partir do nível B2)
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Conhecimento de inglês em nível avançado (1 ponto)
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Idade (2 pontos abaixo dos 35 anos; 1 ponto entre 35 e 40)
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Vínculo anterior com a Alemanha — como ter estudado, feito estágio ou curso no país por ao menos 6 meses (1 ponto)
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Atuação em área com escassez de mão de obra (1 ponto)
O que você precisa ter
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Passaporte válido
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Diploma ou certificado de qualificação técnica, com tradução juramentada e apostilamento
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Reconhecimento (total ou parcial) da formação perante o governo alemão
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Comprovação de meios financeiros para se manter durante o período do visto
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Seguro saúde com cobertura na Alemanha
O tempo de processamento varia entre 2 e 12 semanas, dependendo do consulado.
O que acontece se você encontrar emprego
Se durante o período do Chancenkarte você receber uma oferta qualificada, pode converter o visto para uma autorização de residência e trabalho alemã. Se não encontrar, o visto não pode ser renovado após os 12 meses.
Ponto de atenção
O reconhecimento de diploma alemão é burocrático e pode levar meses. Quem opta pela via de pontos pode iniciar o processo sem o reconhecimento completo, mas precisa estar com o processo de reconhecimento em andamento. Planejamento antecipado é essencial.
Espanha: o novo visto de busca de trabalho
A Espanha criou sua versão do visto de busca de emprego como parte de uma reforma do regulamento de imigração, o Real Decreto 1155/2024. A nova modalidade entrou em vigor em 20 de maio de 2025 e permite residir legalmente no país por até 12 meses para procurar trabalho.
Para quem esse visto é voltado
Este é o ponto mais importante e, ao mesmo tempo, o mais mal explicado em outros conteúdos sobre o assunto. O visto espanhol não é aberto para qualquer pessoa. Ele é direcionado principalmente a três grupos:
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Filhos ou netos de espanhóis de origem — que têm um programa especial de até um ano para se estabelecer e trabalhar no país
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Estrangeiros que concluíram ou estão finalizando estudos universitários na Espanha — que podem solicitar a autorização sem sair do país
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Profissionais qualificados em setores com escassez de mão de obra — conforme lista oficial atualizada periodicamente pelo governo espanhol
Se você é brasileiro, está no Brasil, não tem ascendência espanhola e não estudou lá, seu acesso a esse visto depende de estar em uma das profissões reconhecidas como deficitárias no mercado espanhol. A lista inclui áreas como tecnologia, saúde, construção e hotelaria — mas precisa ser verificada na fonte oficial, pois é atualizada por ordem ministerial.
Requisitos básicos
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Comprovação de recursos financeiros suficientes para se manter durante os 12 meses (o cálculo é baseado no IPREM espanhol, atualmente em 600€ mensais — sem moradia comprovada no país, o valor total exigido pode chegar a cerca de R$ 46 mil na cotação de meados de 2025)
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Diploma universitário, técnico ou comprovação de experiência em área reconhecida
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Seguro saúde com cobertura em todo o território espanhol
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Passaporte válido
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Certidão de antecedentes criminais
Atenção: durante o período do visto, você não pode trabalhar. O objetivo é exclusivamente buscar uma oferta formal. Se encontrar, o empregador pode então solicitar a autorização de residência e trabalho em seu nome.
O visto não é renovável. Se os 12 meses terminarem sem uma oferta concreta, é necessário retornar ao Brasil.
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O que você realmente precisa ter para esses vistos funcionarem
Olhando para os três países abordados neste artigo — Portugal (suspenso), Alemanha e Espanha — um padrão fica claro: o visto de busca de emprego não é para quem está começando do zero.
Os países que oferecem essa modalidade não estão abrindo a porta para qualquer pessoa que queira tentar a sorte. Eles estão oferecendo um caminho estruturado para profissionais qualificados que já têm algo a oferecer ao mercado local.
Isso significa que, antes de planejar qualquer coisa, você precisa ter:
Formação reconhecida. Diploma de nível superior ou técnico, com documentação em ordem — apostilamento, tradução juramentada e, no caso da Alemanha, reconhecimento perante o governo alemão.
Reserva financeira sólida. Esses vistos exigem que você prove que consegue se manter durante meses sem trabalhar. Na Espanha, o valor pode ultrapassar R$ 45 mil. Na Alemanha, o exigido varia, mas é igualmente significativo. Não há visto de busca de emprego para quem não tem reserva.
Inglês ou o idioma local. Na Alemanha, o alemão pesa diretamente no sistema de pontos — e faz diferença real no mercado de trabalho. Na Espanha, o espanhol é indispensável para a maioria das vagas. O inglês ajuda, mas não substitui.
Tempo de planejamento. O reconhecimento de diploma pode levar de 3 a 12 meses. A documentação exige apostilamento, tradução e organização. Quem chega na última hora compromete a qualidade do processo.
Como se preparar antes de aplicar
A preparação para um visto de busca de emprego começa muito antes da solicitação propriamente dita. Esses são os passos que fazem diferença:
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Verifique se sua formação é elegível. Tanto a Alemanha quanto a Espanha têm critérios claros sobre quais qualificações são aceitas. No caso alemão, use o portal Anabin ou o serviço de reconhecimento ZAB para verificar o status do seu diploma. Para a Espanha, consulte a lista oficial de profissões deficitárias.
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Inicie o reconhecimento de diploma com antecedência. Esse processo é lento. Começar antes de ter o visto em mente é a decisão mais estratégica que você pode tomar.
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Organize sua documentação. Diploma original, histórico escolar, carteira de trabalho, certidão de antecedentes criminais — tudo apostilado e traduzido para o idioma do país de destino.
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Construa sua reserva financeira. Calcule os custos reais do país de destino: aluguel, alimentação, transporte, seguro saúde, taxas do processo. Ter margem acima do mínimo exigido pelo consulado é importante para a aprovação e para sua segurança real lá fora.
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Comece a busca de emprego antes de chegar. O período do visto é limitado. Quanto mais contatos e processos seletivos você tiver iniciado antes de embarcar, mais eficiente será sua busca presencial.
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Aprenda o idioma do país. Para a Alemanha, o alemão interfere diretamente na pontuação do Chancenkarte e na competitividade no mercado. Para a Espanha, é condição básica para a maioria das vagas.
Chegou a sua vez de ir para o exterior
O visto de busca de emprego é uma das rotas mais inteligentes para quem quer trabalhar legalmente no exterior sem precisar de uma oferta antes de embarcar. Mas ele exige preparação real — formação reconhecida, reserva financeira e documentação em ordem.
O cenário atual para brasileiros tem opções concretas: a Alemanha com o Chancenkarte e a Espanha com o visto criado em 2025. Portugal, que era o caminho mais popular, passou por mudanças que suspenderam a modalidade e aguarda regulamentação de uma nova versão.
Nenhum desses vistos é um atalho. São caminhos estruturados para quem se preparou. E preparação é exatamente o que separa quem chega lá com um plano de quem chega sem saber o que fazer.
Se você leu até aqui, é porque trabalhar fora já está no seu radar de verdade — não só como sonho, mas como possibilidade que você está pesquisando com seriedade.
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Foto de capa por Amina Atar na Unsplash