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Muita gente que vai estudar na Espanha descobre só depois de embarcar que poderia ter trabalhado legalmente desde o primeiro mês — e perdeu essa janela por falta de informação. Outros chegam com a ideia de que o visto de estudante bloqueia qualquer atividade remunerada, quando na prática é o oposto.

A Espanha passou por uma das maiores reformas migratórias da sua história recente. O Real Decreto 1155/2024, que entrou em vigor em 20 de maio de 2025, mudou as regras do jogo para estudantes internacionais: o limite de horas de trabalho foi elevado de 20 para 30 horas semanais, e a autorização passou a vir impressa automaticamente no TIE — o cartão de identidade do estrangeiro.

Para quem está planejando um intercâmbio na Espanha em 2026, isso muda bastante a conta. Trabalhar 30 horas por semana no salário mínimo espanhol (€1.184/mês em 2025, proporcional às horas) representa uma complementação de renda significativa — e ainda coloca uma experiência profissional internacional no currículo.

Mas tem detalhe importante: essa regra não vale para todos os tipos de visto de estudante. E entender essa diferença antes de solicitar o visto pode mudar completamente o seu plano.

O que você vai aprender:

O que mudou com o novo decreto espanhol

Antes de maio de 2025, o limite de trabalho para estudantes internacionais na Espanha era de 20 horas semanais, e a autorização precisava ser solicitada separadamente. O empregador entrava com o pedido, o processo demorava, e havia uma janela de espera entre a chegada e o início do trabalho.

Com o Real Decreto 1155/2024, esse processo foi simplificado. Para estudantes de ensino superior (graduação, mestrado, doutorado) e de cursos de formação profissional (FP) reconhecidos:

Na prática, isso significa que você pode procurar emprego e assinar um contrato assim que receber o TIE, sem trâmites extras na Oficina de Estrangería.

A única condição que permanece: o horário de trabalho não pode coincidir com o horário das aulas. O empregador precisa confirmar isso antes de contratar.

Mas atenção: nem todo visto de estudante dá direito a trabalho

Aqui está o ponto que causa mais confusão — e que muitos sites erram.

O limite de 30 horas não se aplica a estudantes de escola de idiomas. Se você foi à Espanha com um visto de estudante para aprender espanhol em uma escola de idiomas, a autorização de trabalho não é automática e, na maioria dos casos, não está disponível nessa modalidade de visto.

Em resumo:

Tipo de curso Direito a trabalhar Horas permitidas Graduação, mestrado, doutorado Sim, automático pelo TIE Até 30h/semana Formação profissional (FP) Sim, automático pelo TIE Até 30h/semana Escola de idiomas Não automático Geralmente não autorizado

Se você está planejando combinar estudo de espanhol com trabalho, vale considerar um curso de FP em vez de uma escola de idiomas — ou avaliar outras modalidades de visto, como o de nômade digital (para quem já trabalha remotamente).

O que é o TIE e por que ele vem antes do contrato

O TIE (Tarjeta de Identidad de Extranjero) é o cartão físico de identidade emitido pela polícia espanhola para estrangeiros com autorização de residência ou estudo de longa duração. É o equivalente espanhol de um documento de residência.

Para estudantes brasileiros com visto de longa duração (cursos acima de 180 dias), o TIE precisa ser solicitado dentro dos primeiros 30 dias após a chegada à Espanha. O processo é feito na Oficina de Estrangería ou delegacia de polícia mais próxima.

O que importa para quem quer trabalhar: o TIE de estudante universitário emitido após maio de 2025 já traz impressa a autorização de trabalho. Quando você apresenta esse cartão ao empregador, ele vê ali mesmo que você pode ser contratado. Não precisa de papel adicional.

Custo do TIE: aproximadamente €15 (sujeito a variação).

O NIE: o número que vem com o visto

O NIE (Número de Identificación de Extranjero) é gerado no momento da solicitação do visto de estudante — ainda antes de embarcar. É o equivalente espanhol do CPF brasileiro e funciona como identificação fiscal e administrativa.

Com o NIE, você pode:

Ao solicitar o visto no consulado espanhol no Brasil, você já recebe o NIE no comprovante de protocolo. O número é confirmado quando o TIE é emitido na Espanha.

Atenção: sem o NIE ativo, nenhum empregador espanhol consegue registrar um contrato de trabalho legalmente. Esse é o primeiro documento a organizar — antes mesmo de começar a procurar vaga.

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Durante as férias acadêmicas: sem limite de horas

Durante os períodos de férias da instituição de ensino, estudantes internacionais com visto de estudante podem trabalhar em regime de jornada completa — sem o limite das 30 horas semanais.

Isso vale para os períodos de recesso escolar reconhecidos pela universidade ou instituição. Na prática, significa que durante o verão europeu (aproximadamente junho a agosto) e nas férias de dezembro, você pode trabalhar como qualquer funcionário em tempo integral.

Esse detalhe muda bastante a equação financeira de quem planeja a experiência com antecedência: concentrar mais horas de trabalho nas férias alivia a pressão durante o semestre, quando o foco precisa estar nos estudos.

O que o empregador precisa saber

Do lado do empregador espanhol, contratar um estudante estrangeiro com TIE válido é um processo direto — mas exige alguns cuidados:

  1. Verificar o TIE antes de contratar. O cartão precisa ter a autorização de trabalho impressa e estar dentro do prazo de validade.

  2. Comprovar compatibilidade de horários. A empresa precisa demonstrar que as horas de trabalho não coincidem com a grade de aulas do estudante. Esse é o único requisito ativo que permanece após o novo decreto.

  3. Registrar o contrato na Seguridade Social espanhola. Todo contrato de trabalho, mesmo parcial, precisa ser registrado. O empregador contribui para a Seguridade Social e o estudante gera histórico previdenciário espanhol — o que pode ter impacto em vistos futuros.

  4. Respeitar o salário mínimo. A Espanha tem salário mínimo profissional regulamentado. Em 2026, o salário mínimo interprofessional (SMI) está em processo de negociação — verifique o valor atualizado no momento da assinatura do contrato. [verificar valor vigente antes da publicação]

Setores com mais vagas para estudantes internacionais

A Espanha tem setores com demanda constante por mão de obra e que contratam estudantes com regularidade:

Hostelaria e turismo — bares, restaurantes, hotéis e espaços de eventos são os maiores empregadores de estudantes internacionais. O espanhol é indispensável aqui.

Varejo e atendimento — lojas, supermercados e centros comerciais costumam ter vagas de meio período com flexibilidade de horário.

Babysitting e cuidados domésticos — especialmente em cidades como Madri e Barcelona, há demanda por cuidadores com inglês ou português. A UE tem regulamentação específica para esse tipo de trabalho doméstico.

Tecnologia e startups — para quem tem formação em TI, dados ou design, cidades como Madri, Barcelona e Valência têm ecossistemas de startups com vagas conduzidas em inglês.

Aulas particulares — professores de inglês e português têm demanda constante, especialmente por plataformas como Preply e Italki, que permitem dar aulas de forma autônoma (nesse caso, é necessário avaliar a modalidade de trabalho autônomo dentro do visto de estudante).

Como a Espanha se compara com outros destinos

Para colocar em perspectiva, veja como a Espanha se posiciona em relação a outros países populares entre brasileiros que querem estudar e trabalhar:

País Limite durante aulas Regime nas férias Espanha 30h/semana Jornada completa Irlanda 20h/semana (Stamp 2) Jornada completa Canadá 20h/semana Jornada completa Austrália 48h a cada 2 semanas Jornada completa Reino Unido 20h/semana (nível superior) Jornada completa

A Espanha passou a oferecer o maior limite de horas entre os destinos mais procurados por brasileiros — e com um processo de autorização mais simples após o decreto de 2025.

Como se preparar antes de embarcar

Se você está planejando estudar na Espanha e quer aproveitar a possibilidade de trabalhar, algumas providências antes de embarcar fazem diferença:

Escolha o tipo certo de curso. Confirme que a instituição de ensino e o tipo de programa que você vai cursar se enquadram nas categorias que dão direito à autorização automática de trabalho (graduação, FP, pós-graduação reconhecida).

Solicite o visto com antecedência. O processo no consulado espanhol no Brasil pode levar de 4 a 8 semanas. Considere dar entrada com pelo menos 2 meses de margem antes da data de início do curso.

Leve os documentos de trabalho organizados. Ao chegar, solicite o TIE dentro do prazo de 30 dias e guarde o NIE que você recebeu no protocolo do visto. São esses documentos que você vai apresentar ao empregador.

Aprenda espanhol antes de ir. Para a maioria das vagas disponíveis para estudantes, o idioma espanhol é indispensável. Começar antes de embarcar — mesmo que você já tenha alguma base pelo português — acelera a entrada no mercado.

Tenha reserva financeira para os primeiros meses. O TIE leva tempo para sair, e você só pode trabalhar com ele em mãos. Planejar-se para os primeiros 30 a 60 dias sem renda de trabalho é essencial.

A Espanha vale a pena para quem quer estudar e trabalhar?

Vale — e os números do novo decreto ajudam a entender por quê.

Trinta horas semanais de trabalho no salário mínimo espanhol representam uma renda que pode cobrir uma parte significativa do custo de vida em cidades como Valência, Sevilha ou Granada (mais acessíveis do que Madri ou Barcelona). Somado à flexibilidade de jornada completa nas férias, é possível construir uma experiência que se sustenta financeiramente — especialmente para quem consegue uma bolsa que cobre as mensalidades.

A questão central não é se é possível. É como se preparar para fazer isso de forma legal, organizada e aproveitando ao máximo o que o país oferece.

Chegou a sua vez de ir para o exterior

Se você leu até aqui, é porque a Espanha não é só um sonho no mapa — é um plano que você está avaliando com seriedade. E um plano bom tem estratégia por trás: o visto certo, o curso certo, a documentação em ordem e clareza sobre os próximos passos.

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Foto de capa por Chris Boland na Unsplash