Com um número cada vez maior de estudantes com problemas de saúde mental nas universidades, nunca foi tão necessário falar sobre isso dentro do meio acadêmico.  As instituições de ensino ao redor do mundo devem se preocupar (muito além da qualidade da educação) em atender essa crescente demanda de apoio à saúde e ao bem-estar do seu corpo estudantil e, para isso, é preciso reconhecer os fatores que estão contribuindo para o declínio da saúde mental dentro da academia.

Para entender melhor essa questão, conversamos com Amanda Dantas Brandão, psicóloga formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e residente em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Confira abaixo!

1. As universidades devem se preocupar com a saúde mental dos alunos?

Sim, definitivamente. É ótimo observar que este assunto tem ganhado cada vez mais palco e relevância na sociedade. Não que problemas de saúde mental no contexto universitário sejam uma novidade, mas o fato de estarmos começando a falar sobre isso já sinaliza para o reconhecimento do problema, o que é o primeiro passo para encontrarmos formas de lidar com ele.

As universidades, sendo instituições que tem como propósito a formação de pessoas, precisam estar alertas para acolher as questões relativas à saúde mental e também reconhecer sua própria responsabilidade como ambiente potencialmente adoecedor, buscando analisar os aspectos da instituição que podem estar trazendo prejuízo à saúde mental de professores e alunos e, assim, poder intervir de forma mais efetiva.

2. Como a vida universitária contribui para problemas de saúde mental?

Em um país como o nosso, em que boa parte das pessoas não têm acesso ao ensino superior, a entrada em uma universidade traz muitas alegrias, mas também traz um peso (e uma grande responsabilidade).

No imaginário social, o “diploma” se associa ao alcance de um novo status na sociedade, ao ato de transformar-se em alguém considerado mais valorizado, mais importante. Para dar este novo passo, entra-se em um ambiente por vezes rigoroso, exigente, e que passa a ter um poder simbólico de determinar se você tem mais ou menos valor a partir do quanto consegue se adequar a determinadas normas de linguagem, escrita, postura, performance em provas e trabalhos, etc.

Muitas vezes, as dificuldades que os alunos vão tendo em se adaptar a este ambiente vão se tornando um sofrimento constante e por vezes silencioso que pode culminar em transtornos mentais.

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Crédito: Gerald R. Ford School/Flickr

3. Ainda existe um estigma em torno da saúde mental?

Sim. Acredito que esteja relacionado ao modo como lidamos com o conhecimento, à forma que a civilização ocidental aprendeu a lidar com o corpo e com a ciência.

A visão dualista entre mente-corpo e a valorização da Razão como atributo principal do Homem foram os alicerces da constituição científica e cultural da nossa sociedade, o que trouxe inúmeros avanços mas também questões bastante problemáticas, como o estigma em relação ao que é subjetivo, ao que escapa à racionalidade, ao que não pode ser mensurado.

O nosso método científico demanda um observador e um objeto, o que é mais factível na investigação do corpo, mas muitas vezes se torna um impasse na investigação do psicológico. Tentamos mensurar de diversas formas o pensamento, as emoções e a consciência, mas o caráter abstrato desses elementos dificulta este encaixe no método científico tradicional, que tem por referência o saber biológico. Assim, pode-se compreender melhor os males que afetam o corpo e a saúde “corporal”, mas há a dificuldade de compreender as questões psicológicas dentro deste paradigma biomédico, suas causas, tratamento, etc.

Na Psicologia, temos diversas abordagens baseadas em estudos que nos balizam para lidar com estas questões. Mas, devido à impossibilidade de “comprovar” estas teorias através do método científico devido à própria natureza de seu objeto, abre-se espaço para outras compreensões, como a moral ou religiosa. É comum a associação de depressão, ansiedade, transtorno de abuso de substâncias com fraqueza ou “falta de Deus”. Isto acaba reforçando preconceitos e dificultando que o indivíduo procure ajuda, por medo de ser julgado.

4. Quais são os principais fatores que contribuem para o declínio da saúde mental dentro do meio acadêmico?

Estudantes universitários normalmente lidam com muita pressão. Independentemente de onde vieram, em que tipo de escola estudaram, se têm apoio para se manter ou não, todos precisam lidar com a demanda de estudos, provas e trabalhos.

Os métodos de avaliação dificilmente vão considerar se os alunos tiveram dificuldade em compreender a matéria. Professores tampouco, porque também precisam lidar com a pressão que é exercida sobre eles, como exigência de número mínimo de publicações, entrega de notas, etc.

Há muito rigor e pouca compreensão. Além da demanda das atividades, que pode ser bastante alta, há ainda a questão da qualidade. Aquele que não consegue “pegar o jeito” da escrita acadêmica, passar na prova de cálculo, ou mesmo o aluno que tira ótimas notas e sofre por ter que manter o status de inteligência que adquiriu, ambos podem acabar sendo engolidos pela pressão, negligenciando outros aspectos da vida, como cuidado com a saúde e tempo de lazer e descanso, o que traz vários prejuízos à saúde de uma forma geral.

A performance do estudante e suas notas podem adquirir um valor de identificação pro indivíduo. Desta forma, é como se essas variáveis por si só afirmassem quem ele é como pessoa. Daí surgem o medo constante de falhar, de não dar conta de se formar, o que traz impactos negativos na autoestima, sentimentos de desvalorização de si, culpa, ansiedade, pânico etc.

Não devemos esquecer também que, sendo um ambiente hierárquico, não raro o assédio moral se faz presente na universidade, o que é completamente nocivo à saúde mental de quem sofre com isso. E é algo extremamente difícil de lidar a um nível individual.

O assédio impõe medo, e muitas vezes o aluno (ou mesmo o professor ou funcionário) se vê sem condições até de enxergar determinadas situações como assédio, o que faz com que a vítima permaneça por um longo tempo nessa situação, gerando um sofrimento enorme que pode se transformar em crises de ansiedade e pânico, somatizações (adquirir doenças de influência psíquica), depressão e até suicídio. 

5. As universidades estão fazendo o suficiente para apoiar os alunos com problemas de saúde mental? Você já nota alguns avanços nesse sentido ou muito ainda precisa ser melhorado?

Já venho notando alguns avanços, como campanhas no Setembro Amarelo, ou de promoção de saúde mental na universidade, mas ainda não é o suficiente. Principalmente porque para que haja de fato mudanças nesse sentido, as universidades precisam repensar as formas de avaliação e de relação entre professores e alunos, ou seja, é preciso mexer em coisas que são muito antigas e enraizadas.

É claro que alguns se beneficiam desse sistema de ensino, e a resistência a mudanças também é algo recorrente. Mas nem por isso devemos desistir. O corpo discente tem força e caminhos para levantar suas pautas, e a revisão dessas formas de relação acadêmica vêm sendo uma delas.

Os serviços de saúde das universidades também precisam estar prontos para acolher estes estudantes, oferecendo tratamento adequado, mas também podem intervir na própria instituição, observando aspectos adoecedores e  buscando formas de melhorá-los, fomentando ações que combatam o assédio moral, por exemplo, e atentem para a importância da saúde mental de todos os envolvidos na instituição.

6. Até onde a universidade pode interferir nessa questão sem ultrapassar a privacidade do aluno?

Considero que a universidade pode realizar medidas para promover saúde mental no ambiente que não precise de interferência na privacidade dos alunos, como reavaliar aspectos da instituição, criar canais de escuta, combater assédio moral, etc. Entretanto, em alguns casos, caso a universidade (na figura de algum professor ou funcionário), tome conhecimento de alguém que esteja em sofrimento, é importante escutar esta pessoa para tomar as devidas providências, como encaminhar ao atendimento psicológico ou psiquiátrico. Não há nenhuma necessidade de expor o aluno.

Conclusão

Então, respondendo à pergunta inicial desse texto: Sim! A universidade também é responsável pela saúde mental dos alunos.

Uma universidade que cuida da saúde mental dos alunos provavelmente terá melhores resultados acadêmicos e um corpo discente geralmente mais feliz.

Obviamente, cabe aos estudantes procurar ajuda para problemas que afetam sua própria saúde mental, mas acreditamos que as universidades devem ajudá-los fornecendo essa ajuda e conscientizando-os sobre isso.

Também é verdade que, dentro de um ambiente acadêmico, esse tipo de problema não afeta apenas os alunos, mas também outros membros da comunidade universitária, como professores e funcionários administrativos. E uma universidade inteiramente responsável em relação à questão da saúde mental deve estar atenta também a esses grupos.

Até porque, um professor com problemas de saúde mental, por exemplo, pode apresentar uma queda considerável de rendimento do ponto de vista profissional e isso pode impactar diretamente (e negativamente) no processo de aprendizado dos alunos, e, consequentemente, no desempenho da universidade no geral, em uma espécie de “efeito-dominó”.

Em outras palavras, a universidade deve trabalhar como uma só unidade no sentido de reduzir os fatores que contribuem para a precariedade da saúde mental de toda a sua comunidade e, dessa forma, criar um ambiente propício para melhorar a experiência universitária para todos os envolvidos.

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Rafael Cerqueira

Rafael Cerqueira

Jornalista de 26 anos que adora viajar. Baiano que já viveu em Minas, em São Paulo, em Portugal e na Argentina. Conhece 26 países e tem o sonho de conhecer muito mais. Acredita que o mundo é grande demais e o tempo muito curto pra ficarmos parados sempre no mesmo lugar.